Um dia desses, cruzei com uma vizinha no corredor do edifício onde moro e enquanto ela me olhava com aquela cara de quem viu assombração eu pensava: Quem é essa mulher? Não sei quem estava mais surpresa, se eu em vê-la entrando ou ela em ver-me saindo do apartamento... Mas como tudo hoje em dia é correria, não dei muita bola para o fato e continuei tentando fechar a porta com uma mão enquanto segurava várias sacolas de lixo com a outra. Por falar nisso, tu já percebeste ou contabilizaste a quantidade de lixo que produz por dia? Certamente tu ficarias horrorizado se tivesses esse dado, mas esse é um papo longo e merece um post exclusivo. Bom, enquanto eu me equilibrava entre a porta e os sacos de lixo a loca passou por mim, carregando um colchão, me deu um oi e, quando estava quase entrando no apartamento, virou pra trás e me perguntou se eu morava ali. Eu, que já estava me preparando para ouvir uma reclamação qualquer, respondi quase sussurrando que sim. Foi quando ela escorou o colchão na parede e começou a andar na minha direção. Naquele momento confesso que fiquei sem saber o que fazer, uma série de coisas passou pela minha cabeça, entre elas a possibilidade daquela mulher ser uma maluca, psicopata, que a qualquer momento iria tirar uma faca de dentro da bolsa e enfiar no meu pescoço... Quanta nóia! Enfim, quando ela chegou perto de mim, me olhou bem nos olhos e me perguntou há quanto tempo eu morava lá. Eu, completamente confusa, respondi que já fazia um ano e meio. Então aconteceu uma coisa que eu não vivenciava a mais de dez anos. A loca, rindo e com uma certa vergonha, pegou na minha mão, disse que estava muito honrada em me conhecer, que achava um absurdo sermos vizinhas há tanto tempo e nunca termos nos visto antes e se colocou a disposição para qualquer eventual problema ou apenas para um bate papo. Juro que fiquei com a maior cara de tacho... Como dizem, me caiu os butiá do bolso! Desde os tempos de criança, quando que morava no Medi, onde vizinho e parente era tudo a mesma coisa, que eu não via alguém tão preocupado em conhecer e fazer algo pelas pessoas que estão ao seu redor. Esse episódio me fez refletir sobre como estamos isolados e inertes em relação ao mundo que nos cerca. Não sabemos mais quem mora ao nosso lado, quais são os seus nomes, as suas histórias. Os seus problemas então... Putz, isso nem se fala. Não temos mais pra quem pedir emprestado a chave de fenda, não temos mais com quem tomar chimarrão na frente de casa ou para quem levar um pedaço do bolo que foi feito para o café da tarde. Isso é um absurdo! A verdade é que não sabemos mais quem são nossos vizinhos... Isso não te assusta? Pois a mim causa até pavor. Será que estamos fadados a viver em um mundo onde o nosso vizinho é um ninguém? Quando penso que meus filhos não terão a infância que eu tive - onde a vizinha proibia a minha mãe de cortar meu cabelo e o outro vizinho me ajudava a fazer a pesquisa da escola sobre pecuária - fico muito, muito, mas muito triste. Acho que precisamos rever nossos conceitos sobre sociedade!
PS: só para constar, a vizinha não me disse o nome dela e nunca mais tornei a vê-la... É, eu ainda não sei quem ela é.
PS: só para constar, a vizinha não me disse o nome dela e nunca mais tornei a vê-la... É, eu ainda não sei quem ela é.
2 comentários:
\o/ Pura verdade!!!
\o/ Pura verdade
Postar um comentário